Mauricio Domingues

Mercado de terras

Citricultura em Mato Grosso do Sul: polos de expansão, riscos climáticos e mercado de terras

Por Mauricio Domingues, corretor (CRECI-MS 17.341) e perito avaliador imobiliário (CNAI 56.202) · publicado em 3 de novembro de 2026

Em poucos anos, a citricultura ganhou espaço relevante na agricultura de Mato Grosso do Sul, atraiu grandes grupos empresariais e se consolidou como uma nova fronteira de investimentos no agronegócio do Estado.

Em maio de 2026, a Semadesc informou cerca de 26 mil hectares de citricultura implantados e outros 8.690 hectares em projetos de implantação, totalizando quase 35 mil hectares vinculados à atividade. O setor também registrava mais de 13 milhões de mudas autorizadas para plantio, distribuídas em 44 municípios. A meta do governo estadual é chegar a 50 mil hectares de pomares até 2030. Na cobertura do MS Citrus Summit, em dezembro de 2025, chegou a ser citado o número de 100 mil hectares até 2030, mas a meta oficial divulgada pela Semadesc segue sendo de 50 mil hectares.

Para quem tem terra no Estado ou pensa em comprar, a pergunta prática é: onde a citricultura está avançando e o que isso muda na hora de negociar uma área?

Mapa mental da citricultura em Mato Grosso do Sul: expansão no Estado, por que a laranja veio para MS, risco climático pelo Zarc, polos de expansão no mapa de MS, indústria de suco e pontos para quem negocia terra
Resumo da citricultura em MS. Toque para ampliar.

Por que a laranja veio para MS

O principal motivo é o greening (HLB). A doença não tem cura, é associada à bactéria Candidatus Liberibacter e é transmitida pelo psilídeo-dos-citros (Diaphorina citri). Ela avançou sobre os pomares de São Paulo e de Minas Gerais e levou empresas e produtores a buscar novas regiões. Mato Grosso do Sul entrou nesse mapa por quatro motivos:

  • Defesa sanitária rigorosa. A Lei Estadual nº 6.293/2024 proíbe o plantio, o comércio, o transporte e a produção da murta (Murraya paniculata), planta hospedeira da bactéria associada ao greening. O governo trabalha com política de tolerância zero à doença: a Iagro faz a fiscalização e alerta contra mudas irregulares. Segundo o governo, em abril de 2026 a incidência no Estado ainda era baixa.
  • Incentivo fiscal. O Decreto Estadual nº 16.527/2024 concede crédito presumido de 80% sobre o ICMS próprio nas saídas interestaduais de laranja destinada à industrialização, até 31/12/2032. O benefício não é automático: depende de requerimento, deferimento pela Secretaria de Fazenda e regularidade fiscal.
  • Crédito rural. O FCO tem condições específicas para financiar a citricultura. A Deliberação CEIF/FCO nº 1.045, publicada no Diário Oficial de MS em 29/10/2026, limita a R$ 20 milhões as propostas de financiamento para implantação e condução de pomares cítricos até o terceiro ano, incluídas as operações do FCO já existentes para a mesma finalidade. Os custos de implantação dos sistemas de irrigação não entram nesse limite. A concessão depende do enquadramento do projeto e da análise da instituição financeira.
  • Terra e localização. Há grandes áreas de pastagem que podem ser convertidas, e a Costa Leste fica próxima de São Paulo, onde estão as processadoras de suco.

Aptidão climática: o que diz o Zarc

O que é o Zarc Citros

A principal referência técnica pública é o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc) para citros, da Embrapa. O Ministério da Agricultura publica esse zoneamento em portarias específicas para Mato Grosso do Sul, e ele orienta o Proagro e o seguro rural.

O Zarc apresenta o risco por município, grupo de variedade e textura de solo. Esse risco indica a probabilidade de ocorrerem condições climáticas desfavoráveis capazes de causar perdas na produção. Um risco de 20% quer dizer que, em cada dez safras, cerca de duas podem enfrentar clima desfavorável. Não quer dizer que a fazenda tenha 20% de chance de ser improdutiva.

Em 2023, a Embrapa aplicou o Zarc ao chamado cinturão citrícola expandido. Em MS, o estudo analisou as mesorregiões Centro-Norte, Leste e Sudoeste. O resultado varia conforme o grupo de variedade (de precoce a muito tardia) e a textura do solo (arenosa, média ou argilosa).

O que o estudo mostra para MS

  • Variedades precoces: risco climático de 20% na maior parte das áreas analisadas. A exceção é Pedro Gomes, com 30%.
  • Variedades precoces a meia estação (grupo III), em solo arenoso: risco de 30% a 40% em Aparecida do Taboado, Paranaíba, Inocência, Cassilândia, Selvíria, Três Lagoas e Água Clara.
  • Variedades de meia estação a tardias (grupo IV), em solo arenoso: parte do Leste e do Centro-Norte fica entre 30% e 40%, e a região de Paranaíba passa de 40%.
  • Solos de textura média e argilosa: armazenam mais água e, em geral, apresentam risco menor.

A Embrapa recomenda irrigação, de preferência por métodos eficientes no uso da água, quando o risco passa de 20%. A necessidade depende, portanto, da variedade escolhida, do solo e da localização de cada área. O governo estadual também orienta os novos pomares a contar com irrigação.

Condições mínimas do terreno (Embrapa)

  • solo com pelo menos 1,5 m de profundidade;
  • fora de várzeas inundáveis com baixa drenagem;
  • fora de solos muito pedregosos;
  • nunca em APP;
  • no sequeiro, cerca de 950 mm de chuva por ano, bem distribuídos.

Importante: o Zarc trata de clima e de textura de solo. Fertilidade, pragas, doenças e manejo ficam de fora. Por isso, ele não substitui a avaliação agronômica de cada área, feita por engenheiro agrônomo.

Onde estão os principais projetos e polos de expansão

Os polos abaixo seguem as informações divulgadas pelo governo estadual e pela imprensa, com a data de cada informação. Para uma visão geral do Estado, veja também o nosso mapa de aptidões de MS.

Costa Leste (Três Lagoas, Ribas do Rio Pardo, Água Clara, Brasilândia, Bataguassu, Inocência). O governo aponta a Costa Leste como a principal região da citricultura, pela proximidade com São Paulo.

  • Em Ribas do Rio Pardo está o maior projeto do Estado, ligado ao Grupo Moreira Salles (Cambuhy). Reportagem de maio de 2026 fala em mais de 5 mil hectares e investimento acima de R$ 1 bilhão.
  • Em Três Lagoas, a Citrosuco tem operações. A mesma reportagem cita cerca de 5 mil hectares em cultivo no município.
  • Em Bataguassu, a Agro Terena anunciou cerca de 1,2 mil hectares (novembro de 2024).

Região Central (Campo Grande, Sidrolândia, Terenos, Jaraguari, Dois Irmãos do Buriti). A Cutrale anunciou investimento de R$ 500 milhões e cerca de 5 mil hectares na Fazenda Aracoara, na BR-060 entre Sidrolândia e Campo Grande (novembro de 2024).

Bolsão (Paranaíba, Cassilândia, Aparecida do Taboado).

  • Em janeiro de 2025, a Semadesc informou que a Frucamp tinha cerca de 800 hectares plantados em Cassilândia e previa chegar a 1.800 hectares naquele ano. Para o município, a previsão era de mais de 3 mil hectares.
  • Em Paranaíba, o Grupo Junqueira Rodas anunciou 1,5 mil hectares em 2024. O estágio atual do projeto não foi confirmado.
  • Em solo arenoso, a região de Paranaíba tem o maior risco climático do Zarc para as variedades de meia estação a tardias (grupo IV). Água e irrigação pesam ainda mais aqui.

Outros municípios.

  • Em Paraíso das Águas, a Fazenda Lagoa Dourada tem um projeto de 600 hectares de laranja com irrigação. Em março de 2026, cerca de 300 hectares (aproximadamente 180 mil pés) estavam em implantação, segundo notícia divulgada após visita da Prefeitura.
  • Em janeiro de 2025, o governo estadual também listava cultivo em Chapadão do Sul e Figueirão.
  • Em Naviraí, o Grupo Junqueira Rodas anunciou 2,5 mil hectares em 2024. O estágio atual também não foi confirmado.
  • O secretário da Semadesc citou o risco de geada como limitação no sul do Estado.
  • O estudo da Embrapa não analisou a região do Pantanal. Isso não significa que a região seja inapta, apenas que a aptidão ali precisa de avaliação específica.

Indústria de suco: ainda é possibilidade

Mato Grosso do Sul ainda não tem uma unidade de processamento de suco de laranja em operação; as processadoras estão em São Paulo. Em dezembro de 2024, a Citrosuco avaliava Campo Grande, Três Lagoas e Paranaíba para um empreendimento, e o governo vincula a vinda da indústria à escala de produção.

O passo mais recente veio em setembro de 2026. A Secretaria de Desenvolvimento Econômico de Três Lagoas informou ter recebido uma carta-consulta de um grupo do interior de São Paulo para instalar uma unidade de processamento de laranja no município. O investimento estimado é de cerca de R$ 10 milhões, com início em etapas para atender a produção de citros da região. A proposta ainda depende de análise e aprovação, e não há cronograma divulgado.

A industrialização local é uma perspectiva concreta, mas quem negocia terra não deve tratá-la como fábrica instalada ou em operação.

O que muda para quem compra, vende ou arrenda

A laranja é uma cultura permanente. Segundo a Semadesc:

  • a primeira safra vem por volta do terceiro ano após o plantio;
  • a produção estabiliza por volta do quinto ano;
  • o pomar pode produzir por cerca de 20 anos;
  • em MS, a colheita vai de maio a janeiro.

Por isso, quem procura área para citros costuma olhar com atenção:

  1. Água. A disponibilidade de água, a regularização do seu uso e a outorga, quando exigida, são fundamentais para projetos irrigados.
  2. Energia elétrica. A irrigação depende de energia compatível com o projeto. O governo estadual já citou o fornecimento de energia como um dos desafios da expansão.
  3. Solo e relevo. Solo profundo, bem drenado e sem pedregosidade, confirmado por análise agronômica.
  4. Logística. Estrada transitável o ano todo e distância até os centros de processamento.
  5. Documentação. Matrícula, georreferenciamento, CAR, Reserva Legal e APP sem pendências.
  6. Arrendamento. O Decreto nº 59.566/1966 fixa o prazo mínimo de 5 anos para arrendamento destinado à lavoura permanente. Como o pomar tem ciclo longo, o prazo do contrato precisa ser compatível com o investimento. O contrato deve respeitar as regras obrigatórias do Estatuto da Terra e de seu regulamento. É recomendável que seja elaborado ou revisado pelos advogados das partes.

E o preço da terra?

Até o momento, não identificamos levantamento oficial que isole, município por município, o efeito da citricultura sobre o preço do hectare em Mato Grosso do Sul. Uma referência importante é o Relatório de Análise de Mercado de Terras (RAMT) do INCRA para Mato Grosso do Sul, ano-base 2024, que traz valores referenciais por mercado regional e tipo de uso. Explicamos esse relatório no artigo Valor do hectare em MS.

Na negociação, o valor depende das características de cada imóvel: localização, acesso, disponibilidade de água, solo, aptidão produtiva, benfeitorias e situação documental.

Quando a propriedade já tem pomar formado, a avaliação fica mais complexa. As culturas implantadas e as benfeitorias exigem critérios técnicos próprios, conforme a ABNT NBR 14653-3 (Avaliação de bens — Parte 3: Imóveis rurais e seus componentes), e normalmente pedem apoio agronômico.

Perguntas frequentes

Onde está a citricultura em Mato Grosso do Sul?

Principalmente na Costa Leste (Três Lagoas, Ribas do Rio Pardo, Bataguassu), na Região Central (Sidrolândia, Campo Grande) e no Bolsão (Paranaíba, Cassilândia). Em maio de 2026, as mudas autorizadas para plantio estavam distribuídas em 44 municípios.

Toda fazenda nessas regiões serve para laranja?

Não. O risco climático muda conforme a variedade e o tipo de solo, e o Zarc não substitui a avaliação agronômica de cada área.

O que significa o risco de 20% no Zarc?

Que, em cada dez safras, cerca de duas podem enfrentar condições climáticas desfavoráveis capazes de causar perdas. Não é a chance de a área ser improdutiva.

Mato Grosso do Sul tem greening?

Segundo o governo, em abril de 2026 a doença tinha incidência baixa no Estado. MS adota política de tolerância zero e proíbe a murta. A situação atualizada deve ser consultada na Iagro.

Precisa de irrigação?

Depende da variedade, do solo e da localização. A Embrapa recomenda irrigação quando o risco climático passa de 20%, o que acontece em boa parte das situações analisadas em MS, principalmente em solos arenosos.

Existe incentivo fiscal?

Sim. O Decreto nº 16.527/2024 concede crédito presumido de 80% sobre o ICMS próprio nas saídas interestaduais de laranja destinada à indústria, até 2032, mediante requerimento, deferimento e regularidade fiscal.

Já existe fábrica de suco em MS?

Não há unidade em operação. Em setembro de 2026, Três Lagoas recebeu uma carta-consulta para uma unidade de processamento de laranja (cerca de R$ 10 milhões), que ainda depende de aprovação.

Qual o prazo mínimo de arrendamento para laranja?

O Decreto nº 59.566/1966 fixa 5 anos para lavoura permanente. Como o pomar tem ciclo longo, o prazo precisa ser compatível com o investimento.

Minha fazenda serve para laranja?

Quem responde é um engenheiro agrônomo, com base em solo, clima e água. Eu posso levantar a documentação, a localização e o acesso, e apresentar a área a quem procura terra para citros.

Tem área para citros ou procura terra para laranja?

Tem área na Costa Leste, na Região Central ou no Bolsão e quer saber se ela interessa a esse mercado? Ou procura terra para citros? Fale comigo pelo WhatsApp. Faço corretagem de imóveis rurais em todo o Mato Grosso do Sul e avaliações (PTAM) em todo o Brasil.

José Mauricio Arruda Domingues
Corretor de imóveis CRECI-MS 17.341 · Perito avaliador CNAI 56.202

Conteúdo informativo. Números de área e de projetos seguem o que foi divulgado pelo governo estadual e pela imprensa, nas datas indicadas, e podem mudar. A aptidão de uma área específica depende de avaliação agronômica.

Fontes

  1. Embrapa — Expansão do cinturão citrícola: quais as aptidões e os riscos climáticos? (Documentos 255, out/2023)
  2. Ministério da Agricultura — Portarias do Zarc para Mato Grosso do Sul
  3. Semadesc — Nova fronteira da citricultura brasileira, MS fortalece presença na ExpoCitros (26/05/2026)
  4. O Estado MS — Citricultura deve movimentar mais de R$ 1 bilhão em MS (30/05/2026)
  5. A Crítica — Riedel e Bumlai reforçam combate ao greening em MS (16/04/2026)
  6. Campo Grande News — MS Citrus Summit, Três Lagoas (11/12/2025)
  7. Diário Oficial de MS nº 12.319, de 29/10/2026 — Deliberação CEIF/FCO nº 1.045, p. 28; A Crítica — FCO muda regras em MS; veja as novas regras (29/10/2026); Midiamax — Conselho impõe teto de R$ 20 milhões ao FCO (29/10/2026)
  8. Semadesc — Cassilândia, novo polo da citricultura (29/01/2025)
  9. Campo Grande News — Citricultura chega a 11 municípios (28/01/2025)
  10. Semadesc — Citricultura vira realidade em MS (12/11/2024)
  11. Decreto Estadual nº 16.527, de 03/12/2024 — texto na LegisWeb; cobertura do Campo Grande News (04/12/2024)
  12. Rádio Caçula — Citrosuco avalia municípios em MS (25/12/2024)
  13. Decreto Federal nº 59.566/1966 — texto na Câmara dos Deputados
  14. RCN67 — Três Lagoas pode ter misturadora de fertilizantes e fábrica de suco de laranja (05/09/2026)
  15. O Correio News — Projeto de citricultura com 600 hectares em Paraíso das Águas (16/03/2026)
  16. Lei Estadual nº 6.293/2024 (inclui o art. 7º-A na Lei nº 4.225/2012) — texto na LegisWeb
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